General Luís Valença Pinto: “As pessoas não vão abrir mão facilmente de tudo aquilo que conquistaram”

De Diogo Alexandre Carapinha

24 de agosto de 2021

Luís Valença Pinto, ex-Chefe de Estado-Maior-General das Forças Armadas e atual docente e investigador, analisa a situação no Afeganistão. Afirma que o Ocidente falhou e que a China pode aproveitar essa oportunidade. Quanto ao futuro do país, o general do Exército acredita que existirá um significativo retrocesso, prevendo que várias revoltas da população afegã se farão sentir.

Quais são as reais dimensões do que se está a passar no Afeganistão?
O que está a acontecer era bastante previsível, dadas as circunstâncias que a comunidade internacional estabeleceu para a sua presença no Afeganistão.

Quando em 2011 o Ocidente anunciou que em 2014 retirava algumas tropas e que um tempo depois, que se confirma agora, em 2021, abandonava tudo, isto era razoavelmente prenunciado.
Vai haver muitas tensões e falta ver qual será a reação da população afegã. Eu comecei a conhecer a realidade afegã em 2005, quando estavam ainda frescas as memórias do período de controlo talibã, e a população rejeitava vivamente aquilo que se tinha passado nesse período.

Uma das coisas que a comunidade internacional fez bem em redor do Afeganistão, apesar de, a meu ver, ter começado a fazê-lo tardiamente, foi reforçar e melhorar muito as condições de estabilização de vida social do país, perdidas durante o regime talibã.

Podemos partir do pressuposto que se formará, brevemente, uma coligação internacional para limitar as prováveis repercussões catastróficas de um regime talibã em Cabul?
A China terá um grande peso, porque os poderes ocidentais estão a sair e não vão voltar, pelo menos tão cedo.

Os russos também não vão ter presença fácil. Estes fizeram tudo errado no Afeganistão. Não há nada que se possa dizer que os russos fizeram certo. Do ponto de vista militar, é evidente a quantidade monumental de asneiras que fizeram; já na relação com a população, não podia ser pior – para além de terem ficado bastante distantes das pessoas, espezinharam a cultura islâmica no Afeganistão, que é muito forte.

Então é presumível que a China faça os seus ajustes…
A China, como disse, é diferente. Para já, não estão marcados pelo Afeganistão no passado e aos chineses o solo afegão será interessante para a Belt and Road Initiative. Portanto, na minha ótica, os chineses vão, mais uma vez aproveitar o vazio de poder por parte dos ocidentais.

Irão e Paquistão estão nesta equação?
Estas potências têm imenso a perder, mas acho que quem tem mais a perder vão ser os próprios afegãos e é bom que nós estejamos atentos a isso.

Uma coligação internacional parece-me muito improvável. O Irão é completamente insuscetível de se entender com o Paquistão. Ao Irão há-de perturbar muito os refugiados que lá estão. O Afeganistão é hoje o maior “produtor” de refugiados do mundo.

E a Rússia não estará preocupada com a sua influência nos países da Ásia Menor?
Em relação à Rússia, como referi anteriormente, não terá pé no Afeganistão tão cedo. Posso perceber e entendo que a Rússia procurará manter uma posição que tem hoje em relação aos países da Ásia Menor, mas mais do que isso não creio. Até porque não vejo que a Rússia tenha essas possibilidades, visto que é uma potência com grandes limites na sua expressão – eles sabem que não têm capacidade para ir a tudo.

“O mundo ocidental quis comprar uma lupa e andou à procura daquilo que eles pensavam que eram os bons talibãs”

Os EUA têm sido muito criticados em todo este processo, tendo sido mesmo denominados por diferentes atores da sociedade civil como os principais responsáveis pela queda do Afeganistão. Que avaliação faz à estratégia utilizada por parte das administrações norte-americanas, ao longo dos anos, neste dossiê?
Eu não diria apenas Estados Unidos. Isso liga-se com os grandes equívocos da presença internacional em tudo isto. A primeira grande reunião internacional sobre o Afeganistão aconteceu em Londres, em 2005. Dessa reunião, surgiu um documento chamado “The Afeghanistan Compact”, que era a evidência que o problema afegão tinha de se resolver, certamente com uma vertente militar, porque era preciso reduzir os talibãs, mas era primordial focar-se também em vertentes estruturais, económicas, sociais, culturais e diplomática. Isso foi aprovado pela NATO e outras nações da esfera ocidental, mas a verdade é que esta visão, completamente ajustada e adequada, não vingou.

Com Obama, os EUA adotaram “uma nova estratégia” em relação ao Afeganistão que não contemplava apenas a componente militar. Obama não adotou estratégia nova nenhuma, a estratégia estava lá, só que os EUA a recusavam. Os EUA apenas alinharam naquilo que foi previamente pensado. Um dos grandes responsáveis por esta coordenação foi o General David Petreus, que tinha vindo do Iraque, onde já tinha orientado um processo semelhante, com políticas de inclusão e coesão política, económica e social, reforçando a paz. E foi nessa altura, apenas, que a UE (com o Banco Mundial), o Japão e a Coreia apareceram. Foi também neste período que as Nações Unidas instituíram uma missão específica de assistência ao Afeganistão, a UNAMA (United Nations Assistance Mission in Afghanistan). Isto funcionou bem até 2011/2012, mas entrou em eclipse progressivo até 2014, culminando com o fim dessa estratégia. Ficou apenas a componente militar, no aconselhamento e treino das tropas.

Ou seja, a comunidade internacional não se empenhou no Afeganistão.
Sim. E a conduta americana não foi correta no princípio e agora é incoerente com aquilo que, em tempos, foi compreendido que era importante.

Olhando um pouco para os talibãs. São um grupo que produz terroristas, mas que não é um grupo terrorista, correto?
Sim, os talibãs não são um grupo terrorista, apesar de cometerem atos terroristas. Trata-se de um grupo radicalista islâmico que tem aspirações políticas e, portanto, pretende controlar política, económica e socialmente o Afeganistão (que já controla). Nenhum grupo terrorista tem esta potencialidade ou ambição. O único grupo terrorista que teve, parcialmente, essa ambição foi o autoproclamado “Estado islâmico”, com uma componente territorial e uma terrorista. Os grupos terroristas não têm pretensões territoriais, mas sim a pretensão de perturbar a vida das sociedades organizadas. Não querem governá-las.

Mas os talibãs não estão sozinhos…
Não. Ao lado dos talibãs – e eles não desapareceram, vão aparecer, falta só ver se os talibãs os acomodam ou os excluem -, pode estar a rede Haqqani, que era, pelo menos há 10 anos, muito mais tenebrosa, radicalmente, que os talibã.

E o Ocidente tem consciência disso.
O mundo ocidental quis comprar uma lupa e andou à procura daquilo que eles pensavam que eram os bons talibãs, que eram aqueles com os quais se podia negociar. Isto só serviu para legitimar uma pseudo-negociação e para eles se prepararem para o que aí vinha.

O processo de passagem do poder não poderia ter sido diferente?
Os talibãs não consentem nenhuma conciliação. O (antigo) regime afegão, desde o tempo de Hamid Karzai, é a personificação do diabo para eles.

Eles não reconheciam a democraticidade do regime afegão, mas eles também não reconhecem a democracia, portanto isso até é irónico. O facto de, desde 2003, os líderes afegãos terem adotado modelos de estruturação política, económica e social, com base em padrões ocidentais, é, para os talibãs, uma traição à cultura democrática afegã, que não é a nossa cultura democrática. Claro que depois há abusos nos termos, mas a democracia deles não é a nossa.

Os talibãs afirmam que têm ideias mais moderadas, quando comparadas à prática de há duas décadas atrás. Acredita que isso pode acontecer?
Em 2005, não havia um hospital a funcionar, uma estrada. Havia uma escola e uma central elétrica, que funcionava poucas horas por dia. Não havia uma rede de esgotos, água canalizada. Os afegãos são gente muito comerciante e até mesmo as feiras de ruas estavam proibidas. Os talibãs vão querer que isso volte a esse patamar. As pessoas vão consentir pacificamente isso? Não lhe sei dizer.

E depois temos as restrições às mulheres…
Não são só os talibãs que são intolerantes às mulheres, é a própria sociedade afegã. Há vários relatos de mulheres que foram violadas pelos seus camaradas, em contexto militar e não só. Mas sim, as mulheres serão um dos principais alvos dos talibãs.

Conhecido como o país onde os grandes impérios esbarram, como prevê que fique o território afegão?
Considero que o que vai acontecer será um significativo retrocesso. Quão rápido e profundo, isso terá que ver com a reação popular. As pessoas não vão abrir mão facilmente de tudo aquilo que conquistaram, porque, naquele contexto, todas as conquistas foram um luxo inimaginável.

*Entrevista realizada a 13 de julho de 2021