Que olhar têm os iranianos sobre a sua própria cultura?

Que olhar têm os iranianos sobre a sua própria cultura?

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Sempre orgulhosos da sua identidade, os iranianos acreditam e valorizam a soberania nacional. Apesar de desafios devastadores como as guerras e invasões ocorridas ao longo da história, conseguiram proteger e conservar a sua identidade cultural. O cruzamento das antigas culturas étnicas com a nova religião aparecida no século VII, o Islão criou a tal diversidade que, ainda hoje em dia, faz com que os iranianos e persas distinguem-se de todos os povos apesar da era de globalização em que vivemos, que pretende uma certa uniformização dos pensamentos e ideais. A cultura e identidade iraniana são o fruto de um conjunto de rituais, costumes, tradições, artes, poesia, fés e religiões de diversas etnias iranianas, desde os persas, os lores, os curdos, os azaris, os árabes, os guilaquis e muitos mais. Esta cultura provou durante a sua história ter a capacidade de compreender e cristalizar diferentes hábitos e costumes sem perder a sua própria identidade.

A cultura iraniana, ou melhor dizer, as diversas culturas iranianas unidas sob a bandeira da República Islâmica do Irão, dentro das fronteiras geográficas atuais do país, são a herança de uma das maiores civilizações: civilização persa inseparável da religião de Zoroastro. Mais tarde, no seu apogeu no período sassânida, foi assimilada pelo Islão e perdeu a sua identidade e individualidade. Mas, sem qualquer dúvida, após alguns séculos, ressuscitou com mais estabilidade e força e chegou a inspirar e influenciar o mundo muçulmano. A cultura e sabedoria dos persas foram os moldes do pensamento filosófico e artístico dos povos muçulmanos e não só.  Não foi por acaso que mais tarde encontrou a sua identidade na independência da versão xiita do Islão e percorreu o seu próprio caminho e fortaleceu a sua identidade xiita iraniana dentro do mundo muçulmano. Foi assim que o génio da cultura iraniana, na era Safavida, inspirou-se da sua alma poética e divinizou a cidade de Isfahão, reconhecida pela sua arte incomparável. A cultura islâmica iraniana herdeira da cultura antiga persa comprovou o seu talento e maravilhou o mundo pela sua originalidade e fineza suscitando uma alma poética e artística.

Neste ilustre período, o génio da cultura iraniana marcou o encontro entre os mundos: Oriente e Ocidente. A cultura iraniana inspirou o Ocidente. Os fascinados descobriam um povo e uma cultura original, diferente e incitadora na sua poesia, filosofia, moda, música, tapeçaria, pintura, caligrafia, arquitetura, ciência, etc. Por seu lado, gradualmente encontrou as revoluções aceleradas do Ocidente, a vitoria da razão e raciocínio e a nova era industrial. A curiosidade e o fascínio ao outro renasceram no coração da nação iraniana. Neste encontro, também os iranianos descobriam e absorviam sem qualquer complexidade os novos modos de vida. Novamente influenciaram e foram influenciados.

Ainda, não podemos negar que desde há mais de dois séculos, a ciência, tecnologia, filosofia, arte e literatura do Ocidente são os pontos mais fortes da admiração iraniana. Hoje em dia, na era de globalização em que vivemos, a cultura iraniana é a herdeira legítima da antiga Pérsia na sua própria evolução xiita muçulmana, herdeira de uma literatura poética nascida com Ferdowsi e enriquecida com Hafez, Sa’adi, Khayyam, Rûmi, Nezami e muitos outros. A mesma cultura, na sua forma complexa e desafiadora, admira e assimila a ciência, tecnologia e arte de outras nações e culturas.

Por fim, podemos assimilar a cultura iraniana atual ao encontro entre mundos: com as suas novas formas na arquitetura moderna onde encontramos o cruzamento da alma artística e poética iraniana com a tecnologia e sabedoria ocidental, no cinema onde os mesmos pilares criam obras primas que suscitam o espanto do mundo e na sua pintura que é o renascimento da miniatura persa com um olhar modernista. Na nossa era, os desafios são inumeráveis, mas a cultura encontra sempre a sua escapatória.

Sépideh Radfar,

Diretora do Centro de Iranologia (FLUL), membro do Conselho Consultivo do Observatório do Mundo Islâmico.