O ISLÃO NA RÚSSIA – DAS ORIGENS À ACTUALIDADE

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RESUMO

Na Rússia contemporânea, o número de aderentes ao Islão ultrapassa os 11 por cento do total da sua população, estimada em cerca de 140 milhões, ainda que muito distante dos cerca de 73 por cento de cristãos, representados, sobretudo, na Igreja Ortodoxa Russa. Desde os tempos mais remotos que a comunidade muçulmana faz parte da longa história deste enorme país. Com o advento do Islão, no ano de 610, e após a morte do Profeta Maomé, em 632, a nova religião monoteísta começou a expandir-se a partir da Arábia; numa primeira fase, em redor dos territórios da Península Arábica, e, posteriormente, para o Médio Oriente, norte de África, Império Bizantino, região sul do continente europeu (Península Ibérica) e para a Ásia Central. O ano de 922 é considerado como o ano da chegada do Islão ao território russo. Actualmente, a maior parte dos muçulmanos russos está concentrada, essencialmente, nas repúblicas do Cáucaso Norte e na região do Volga. A longa e histórica relação entre a Rússia e os muçulmanos nem sempre foi fácil. Mesmo sendo classificada, ao longo dos tempos, como uma das chamadas religiões tradicionais, as múltiplas tentativas de entendimento entre as autoridades do país e a comunidade muçulmana, nem sempre obtiveram os resultados desejados. Mais recentemente, conflitos como os ocorridos no norte do Cáucaso, a ascensão do nacionalismo em repúblicas muçulmanas, os fluxos migratórios, a par do terrorismo nacional e internacional, têm-se revelado como factores potenciadores de um sentimento islamofóbico, cada vez mais generalizado, da população russa. Nesse sentido, tem vindo a ser promovido pelas autoridades russas um amplo conjunto de iniciativas, envolvendo os líderes muçulmanos, tendentes à construção da imagem de um Islão moderado.

ANÁLISE

O advento do Islão e a sua expansão

A morte de Maomé, em 632, deu lugar uma prolongada e acesa luta pela sua sucessão, que tem perdurado até aos nossos dias. Situação que, seguramente, continuará por tempo indeterminado. Foi, igualmente, a partir desse ano que, sob o domínio do Califado Ortodoxo, teve início a primeira fase da expansão do Islão para os territórios situados a Norte (Síria e Arménia) e a Ocidente (Egipto e Norte de África). A segunda fase, já sob a égide do Califado Omíada, prosseguiria, ainda no Norte de África, estendendo-se, um pouco mais tarde, à Península Ibérica e à região do Cáucaso.

A chegada do Islão à Rússia

Embora nem todos os historiadores coincidam no ano em que o Islão chegou ao actual território russo, a maioria defende que a sua entrada ocorreu em 922, tendo sido adoptada por habitantes do Volga, num pequeno Estado que existiu entre os séculos VIII e XIII, actualmente ocupado pelas repúblicas russas do Tartaristão e da Chuváchia. Existe, contudo, uma versão que sugere a chegada do Islão ao actual território russo, no século VIII, através de uma cidade, hoje conhecida como Derbente, na República russa do Daguestão, junto ao Mar Cáspio, e a norte da fronteira com o Azerbaijão. Já nos séculos XVIII e XIX o Império russo passou a incorporar os territórios do Cáucaso Norte, com uma população maioritariamente muçulmana.

Ao longo de um largo período, houve líderes políticos russos que, numa obscura parceria com a hierarquia ortodoxa, tudo fez para a erradicação do Islão, em todo o território. Caberia à Imperatriz Catarina II, Catarina, a Grande, que reinou entre 1762 e 1796, o estabelecimento de direitos de igualdade à comunidade muçulmana e, consequentemente, a sua integração plena na sociedade. Ainda assim, estas novas concessões só vieram a surgir após a imposição de inúmeras restrições. Mais tarde, em 1785, e numa tentativa de organizar e controlar estas minorias religiosas, a Imperatriz acabaria mesmo por permitir o financiamento destinado à construção de novas mesquitas e espaços habitacionais para a comunidade muçulmana. Nos nossos dias, a maior parte dos muçulmanos russos habita na região do Volga e no Cáucaso Norte.

O Islão na Rússia contemporânea

Ao longo de todo o período pré-soviético não há registo de ter havido, por parte do poder dominante. qualquer tipo de iniciativa tendente à cristianização da comunidade muçulmana, à excepção de incentivos de natureza económica com vista à sua conversão. Essas iniciativas foram, todavia, inconsequentes. Em sentido contrário, eram severamente punidas todas as tentativas proselitistas por parte dos líderes religiosos muçulmanos. Ainda assim, a Rússia mostrou ser na época o país mais tolerante com a comunidade muçulmana. É de referir, no entanto, que no decorrer do século XIX, os Jadid, que constituíam um movimento reformista dentro do Império Russo, foram os responsáveis pelas primeiras tentativas de construção de um pensamento sobre a cultura muçulmana russa; todavia, de alcance irrelevante. Já em pleno período soviético, e num marcado contexto ideológico, as religiões foram sujeitas a uma dura repressão, apesar de, por parte dos líderes religiosos muçulmanos, ter havido sempre uma total lealdade ao poder socialista, tendo chegado mesmo a colaborar nos domínios da política externa soviética. Todavia, essa parceria foi episódica, não tendo ido além de 1927, onde a investida anti-islâmica resultaria numa grave decadência das administrações muçulmanas, o que só viria a conhecer algum afrouxamento por ocasião da Segunda Guerra Mundial, em troca de uma intervenção de natureza espiritual assumida pelos líderes das religiões tradicionais. Com o fim da guerra, a pressão sobre as correntes religiosas, em território soviético, conheceu o seu termo. Em 1989, dois anos antes da desintegração formal da União Soviética, a comunidade muçulmana acabaria, também ela, por se fragmentar, como reflexo do descontentamento generalizado face à sua liderança, acusada de alinhamento com o poder estatal. Este conflito, acabaria por dar lugar ao surgimento de diferentes correntes do Islão não tradicional, e, consequentemente, à criação de diversas lideranças espirituais russas, entre as quais as consideradas ultraconservadoras, como o Wahhabismo. No Cáucaso Norte, entretanto, persiste a confrontação entre uma interpretação do Islão considerada moderada (Sufismo) e outra conotada com o fundamentalismo islamista (Salafismo), representadas por mais de quatro dezenas de direcções espirituais independentes. No início do século XXI, os muçulmanos russos estão concentrados, essencialmente, nas regiões a norte do Cáucaso e na bacia do Volga. Já a população imigrante [muçulmana] reside em grandes cidades, como Moscovo, São Petersburgo e Novosibirsk, na Sibéria.

Na Rússia dos nossos dias, são muitas as religiões professadas, sendo a Igreja Ortodoxa a mais representativa, seguida, a grande distância, pelo Islão. De assinalar, entretanto, o elevado número de não-crentes, numa percentagem ainda superior à dos fiéis muçulmanos. A este propósito, é de relevante importância destacar a mudança do perfil religioso da população mundial, o que, de resto, se tem vindo a registar no decurso dos últimos anos, e que se reflectirá ao longo das próximas décadas. Deste modo, e de acordo com as projecções do Pew Research Center, a população mundial, no ano em curso [2020], será de 7,657 biliões, dos quais 2,4 biliões (31,1 por cento) professam o Cristianismo (nas suas diferentes correntes), 1,9 biliões (24,9 por cento) serão fiéis ao Islão, 1,2 biliões (15,2 por cento) pertencentes ao Hinduísmo, 507 milhões (6,6 por cento) seguidores do Budismo, 430 milhões (5,6 por cento) afectos às Religiões Étnicas, e 1,2 biliões (15,6 por cento) sem qualquer religião (ateus, agnósticos e outros). Já para o ano de 2050, os mesmo estudos estimam que a população mundial será de 9,3 biliões, dos quais 2,9 biliões (31,4 por cento) seguirão o Cristianismo (nas suas diferentes correntes), 2,8 biliões (29,7 por cento) serão aderentes do Islão, 1,4 biliões (14,9 por cento) serão afectos ao Hinduísmo, 486 milhões (5,2 por cento) pertencerão ao Budismo, 449 milhões (4,8 por cento), estarão ligados às Religiões Étnicas, e 1,2 biliões (13,2) não terão qualquer religião. Se as actuais tendências demográficas se mantiverem, no final da primeira metade do século XXI, o número de aderentes do Islão quase alcançará os valores dos seguidores do Cristianismo (nas suas diferentes correntes), devido, sobretudo, às elevadas taxas de natalidade da população muçulmana, com o enorme contributo dos países da África Subsariana, em contraciclo com um mais lento crescimento do número de cristãos (nas suas diferentes correntes).

Relativamente à Rússia, os mesmos estudos estimam para o presente ano [2020], uma população de 139,760 milhões. Sob o ponto de vista religioso, a população cristã (Igreja Ortodoxa) domina largamente, com 101,9 milhões (72,9 por cento) de fiéis, enquanto o Islão reúne 15,9 milhões (11,4 por cento) de aderentes. Por seu turno, a população Sem Religião corresponde a 21,2 milhões (15,2 por cento). Para 2050, as estimativas apontam para uma diminuição da população russa, que ficará próxima dos 124 milhões. O número de aderentes ao Cristianismo (Igreja Ortodoxa) será de 88,4 milhões (71,3 por cento), ainda bastante à frente dos seguidores do Islão, que reunirá 20,9 milhões (16,8 por cento) do total da população, ao passo que o grupo Sem Religião atingirá os 13,9 milhões (11,3 por cento). Na Rússia, o Islão assume diferentes interpretações, dando lugar a várias tendências, desde a moderada à mais fundamentalista; esta, representada por uma população mais jovem, concentrada, sobretudo, a norte do Cáucaso, região identificada como um dos principais focos do radicalismo islamista, em território russo, que se mantém firme na recusa de ser governada por um Estado não muçulmano; o que, de resto, tem levado muitos especialistas e políticos russos a alertar para uma crescente radicalização de alguns sectores da população muçulmana, não só no seu território, como, também, em regiões fronteiriças da Ásia Central. É, assim que, neste contexto, tem progredido, por todo o território russo, um sentimento islamofóbico, apesar de, alguns sectores nacionalistas ortodoxos verem os muçulmanos como potenciais aliados na sua luta contra o sionismo.

Na Rússia, contrariamente ao que se verifica na generalidade dos países que têm comunidades muçulmanas, o Islão não resulta de uma imigração pós-colonial nem do processo de globalização. Há, contudo, áreas onde a população migrante muçulmana tem uma presença relevante. Na verdade, a população muçulmana em território russo existe há já catorze séculos, sendo, por isso, considerada autóctone. Actualmente, a Rússia tem a maior população de minoria muçulmana do continente europeu, distribuindo-se por todas as divisões territoriais, com particular relevo, a norte do Cáucaso, para além da Sibéria e dos territórios mais a Oriente. Grandes metrópoles, como Moscovo e São Petersburgo registam, igualmente, a presença de um considerável número de muçulmanos. Segundo projecções relacionadas com o desenvolvimento demográfico, na segunda metade do século XXI, também a Rússia registará um crescimento relevante da comunidade muçulmana, em oposição a um declínio da restante população, devido, essencialmente, às suas maiores taxas de natalidade. É de particular significado referir que, sob os pontos de vista políticos e geostratégicos, a Rússia tem recorrido à presença histórica de muçulmanos no seu território para promover relações com alguns países do Mundo Islâmico, em particular no Médio Oriente, onde se verifica uma crescente presença russa, tanto no domínio militar, como no económico, e uma gradual aproximação aos tradicionais aliados norte-americanos, no Golfo Pérsico, ao mesmo tempo que, a nível regional, e no contexto do conflito da Crimeia, de 2014, a liderança russa tem procurado o apoio de organizações muçulmanas com o propósito de persuadir os tártaros [da Crimeia], que acolhem no seu território uma significativa parcela de mais de 5 milhões de cidadãos pertencentes a este grupo étnico, a apoiar as pretensões russas. Outro factor determinante nos domínios da estratégia da liderança russa, está relacionado com o crescente declínio populacional do país, comparativamente à expansão da [ainda] minoria muçulmana. Certo é que, apesar dos esforços do actual presidente russo, no sentido de aumentar o prestígio da Igreja Ortodoxa Russa, tornando-a, de facto, a religião nacional, o legado ateu da época soviética está a mostrar-se difícil de superar.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Atendendo a uma eventual continuação das já referidas tendências demográficas mundiais, é de assinalar que, a manterem-se, resultarão, em 2070, numa paridade entre as populações muçulmana e cristã. Em 2100, contudo, a primeira [muçulmana] representará 35 por cento, contra 34 por cento da segunda [cristã].

Da parte dos actuais líderes russos, e chegados ao século XXI, parece haver um claro e mais amplo entendimento sobre a importância dos temas associados à comunidade muçulmana, não só russa, como universal. Após a liberalização da política religiosa do período da Perestroika, introduzida na União Soviética, em 1986, pelo, então, presidente Mikhail Gorbachev, verificou-se um aumento de lugares de culto muçulmanos, para além de outras instituições, como centros culturais e institutos científicos, por todo o território soviético, passando a comunidade a fazer parte da vida política do país, em especial nas repúblicas autónomas do Daguestão, da Chechénia-Inguchétia, do Tartaristão e do Bascortostão. Sob a liderança do presidente Vladimir Putin, o actual posicionamento russo, no contexto religioso, vai no sentido de uma efectiva ideologia unificadora – de um etnonacionalismo -. Na Rússia, o número de muçulmanos está a aumentar, não somente devido à alta taxa de natalidade, como, também, à chegada de cidadãos oriundos da Ásia Central. Ao longo das próximas décadas, a Igreja Ortodoxa e o Islão continuarão a ocupar os lugares cimeiros, quanto ao número de fiéis, o que fará acreditar na consolidação do ideal de uma Rússia mais unida e poderosa, tanto no plano interno, como a nível internacional; estes, materializados pela celebração de parcerias/acordos com muitos países do Médio Oriente. Mas é, justamente, no domínio territorial, e à luz das sérias preocupações relacionadas com a segurança interna, para onde deverão ser orientados os holofotes da actual e futuras lideranças russas, considerando a presença de uma população jovem, com profundas incertezas quanto ao seu futuro, e a enfrentar sérios problemas de vida, o que a leva a procurar novas e promissoras respostas no Islão, tornando-a uma presa fácil do discurso sedutor e, por vezes, demagógico, de muitos líderes religiosos [muçulmanos].

Lisboa, 30 de Agosto de 2020

João Henriques é
Investigador Integrado do Observatório de Relações Exteriores (OBSERVARE)/Universidade Autónoma de Lisboa
Vice-Presidente do Observatório do Mundo Islâmico
Auditor de Defesa Nacional pelo Institut des Hautes Études de Défense Nationale (IHEDN), de Paris