No passado dia 28 de novembro de 2024, a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa recebeu o seminário intitulado “O Grande Médio Oriente e a Nova Configuração Geopolítica Regional e Global”, organizado pelo pelo Observatório do Mundo Islâmico e pelo Núcleo de Estudos Europeus da Faculdade de Letras. O evento reuniu especialistas de várias áreas, que discutiram o complexo tabuleiro geopolítico da região do Médio Oriente e as suas implicações globais, numa época marcada pela tensão crescente e pela imprevisibilidade política.
O Médio Oriente como ponto central de tensões
O Médio Oriente é uma região caracterizada por uma enorme complexidade geopolítica e onde as tensões são constantemente alimentadas por fatores históricos, culturais e políticos. Paulo Sande, professor convidado do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, destacou a importância do equilíbrio no contexto atual de extremismos e de radicalização. “A Europa precisa de um Médio Oriente em paz”, afirmou, sublinhando que é fundamental para a estabilidade europeia desenvolver uma política de vizinhança consistente e aprofundada com os países da região.
Neste contexto, a relevância geoestratégica da região para a Europa foi particularmente destacada, especialmente perante a fragilidade da União Europeia (UE) em termos de política externa. Francisco Seixas da Costa, embaixador e comentador de assuntos internacionais, reforçou a ideia de que a UE “recebe o óscar de melhor ator secundário”, referindo-se ao papel secundário que a Europa desempenha nas decisões geopolíticas mais relevantes, quando comparada com potências como os EUA ou a China.
EUA, Israel e a incerteza em relação ao futuro
Um dos temas centrais do seminário foi o papel dos EUA no Médio Oriente, especialmente considerando a nova administração de Donald Trump. Vários palestrantes mencionaram a imprevisibilidade da política externa norte-americana. Na intervenção de João Henriques, Presidente-Executivo do Observatório do Mundo Islâmico, ficou clara a preocupação com o agravamento das tensões, particularmente entre Israel e o Irão. “Na anterior administração de Trump, os EUA retiraram-se do acordo sobre o nuclear com o Irão e agravaram as sanções”, destacou João Henriques, acrescentando que tal contexto apenas acentuou as divisões e tensões regionais.
A complexidade do conflito israelo-palestiniano foi abordada em detalhe, com vários oradores a salientarem a pressão crescente sobre Israel. Paulo Sande questionou: “Será que Israel está com uma pressão tão grande que esta é a única saída?”, referindo-se à necessidade urgente de um cessar-fogo e à pressão internacional para a resolução do conflito.
Irão e o equilíbrio de poder regional
O papel do Irão no Médio Oriente é essencial para compreender a dinâmica regional, sendo visto como pivô. O embaixador do Irão, presente no seminário, criticou as sanções norte-americanas, que considerou “um abuso de poder” e “uma violação das normas do direito internacional”. Esta intervenção mostrou a posição do Irão como um país disposto a colaborar com a Europa, mas que sente a pressão das sanções e das tensões militares.
A esse propósito, o embaixador Seixas da Costa salientou que o Irão, em face da retirada dos EUA do acordo nuclear, tem procurado ganhar terreno na região, nomeadamente em conflitos como os do Iémen e da Síria. “O Irão tem um grande sentido de afirmação regional, nomeadamente no plano religioso, na dicotomia entre xiitas e sunitas”, apontou Seixas da Costa, destacando a importância da influência iraniana nos desenvolvimentos regionais.
O Papel da China e da Rússia no novo contexto geopolítico
Outro tema relevante discutido durante o seminário foi o papel da China e da Rússia no Médio Oriente e no panorama global. Rui Cardoso, jornalista e comentador de política internacional, referiu a postura enigmática da China como “um silent partner no Médio Oriente”, cujas intenções em relação à Ucrânia e ao Médio Oriente permanecem pouco claras.
Já a influência da Rússia na região também foi abordada, particularmente em relação à sua interação com o Irão. Germano Almeida destacou a “contradição na relação entre a Rússia e o Irão” que poderá ter consequências imprevisíveis nos próximos anos. Esta colaboração ambígua e complexa entre os dois países é um fator de incerteza para a estabilização do Médio Oriente.
Todos estes intervenientes e fatores, abordados no decorrer da conferência, evidenciam que o futuro da região depende de equilíbrios delicados entre potências globais e locais, bem como da capacidade da Europa e dos EUA em estabelecerem uma abordagem coerente e eficaz.
O sentimento geral foi de que as tensões no Médio Oriente não são apenas um reflexo dos conflitos regionais, mas também de um sistema global em reconfiguração, onde os BRICS, os EUA, a China e a UE têm papéis cruciais, mas nem sempre coesos. A única certeza, para já, é a incerteza do futuro e a necessidade de dialogar e encontrar formas de colaboração que ultrapassem os conflitos e promovam a estabilidade e a paz.
Como apontou Francisco Seixas da Costa, “a questão do Médio Oriente não se resume à disputa entre Israel e a Palestina; é o rastilho para outras tensões na região”. O futuro do Médio Oriente permanece, portanto, um tabuleiro complexo onde se jogam, ao mesmo tempo, interesses regionais e globais. A Europa, apesar das suas fragilidades, não pode deixar de olhar para esta região como parte do seu “near abroad” e um campo crucial para a sua própria segurança e prosperidade.