Em 2023, forças regionais, atores não estatais e países do Ocidente, em menor proporção, conduzem o curso da geopolítica no Médio Oriente. Antes do ataque do Hamas, os Estados árabes e o Irão haviam se tornado mais assertivos em suas relações internacionais e mais conciliadores entre si e diretamente desconectados da influência de atores não estatais. Mas o ataque do Hamas a Israel marcou o retorno violento de grupos extremistas.
Hoje, a volta do equilíbrio geopolítico depende muito da influência externa, uma vez que o apoio político e militar dos Estados Unidos e dos países da Europa Ocidental ao governo israelense dificulta o retorno ao status quo de antes dos ataques terroristas do Hamas.
Com o apoio incondicional dos Estados Unidos e de influentes países da Europa, Benjamin Netanyahu encontrou o respaldo necessário para a prática de sua política expansionista de ocupação crescente de terras palestinas.
Do outro lado, atores não estatais e instituições informais, que abrangem desde milícias a grupos terroristas, têm sido nas últimas décadas pauta nas agendas de segurança regional e global. Desde grupos terroristas da década de 1970, terrorismo islâmico na Argélia e no Egito na década de 1990, Grupo Wagner na Líbia, a organização fundamentalista Al-Qaeda, o Estado Islâmico (ISIS) e, acima de tudo, Hamas e Hezbollah, nas últimas duas décadas afetaram as relações internacionais entre alguns dos Estados do Médio Oriente e países do Ocidente.
Mesmo quando atores não estatais não dominaram a agenda, eles permanecem inseridos na geopolítica da região. Vale destacar que grupos curdos e palestinos foram alimentados por aspirações nacionalistas, grupos extremistas islâmicos por ideologias radicais, enquanto Hamas e Hezbollah estão entre os grupos terroristas mais importantes e influentes em governos do Médio Oriente.
O Hamas é o governo de fato de Gaza e, por muitos anos, o Hezbollah fez parte do governo libanês, governando efetivamente o sul do Líbano, ocupando cargos de gabinete diretamente e por meio de seus aliados e muitas vezes agindo como um fazedor de reis, ou pelo menos jogador de veto, para o primeiro-ministro do país. Esses papéis contrastam com os objetivos de grupos como o núcleo da Al Qaeda, que se concentrou principalmente no terrorismo ou, no caso do Estado Islâmico, na guerra. Hoje, a Al Qaeda e o Estado Islâmico desempenham pouco ou nenhum papel no governo.
O sectarismo e a política de identidade dentro de países divididos em linhas étnicas e religiosas também desempenharam um papel definidor e sustentador. O resultado é uma região na qual, apesar da força de seus Estados, uma parcela desproporcionalmente grande do poder permanece fora do sistema baseado no Estado. E hoje Estados atacados não se impõem unicamente com suas forças oficiais e sim com agentes não estatais.
Na esfera estatal, o apoio incondicional dos Estados Unidos a Israel no Médio Oriente aponta para a influência geopolítica. Quando o governo norte-americano decidiu diminuir seu poder militar na região, as duas potências globais desafiadoras, a China e a Rússia, aumentaram sua presença econômica, política e militar no Médio Oriente. Os Estados Unidos e outros países ocidentais direta ou indiretamente facilitaram para o aumento da presença russa na região, especialmente na Síria.
Do lado chinês, Xi Jinping mantém sua política de não intervenção e não envolvimento nos assuntos de seus parceiros econômicos. Entretanto, recentemente a diplomacia chinesa mediou o aperto de mãos entre o Irão e a Arábia Saudita. A China conseguiu diminuir as tensões entre os dois Estados.
O atual desequilíbrio geopolítico do Médio Oriente, apresenta países ricos regionais, como a Arábia Saudita, conduzindo sua política externa e comércio internacional sem maiores reflexos da guerra. Mohammed bin Salman, príncipe herdeiro do trono saudita, conduz projetos de desenvolvimento e transição energética em acordos com países europeus e do Sul Global. Vale destacar que a maioria dos projetos em transição energética são realizados com a China, que ainda é o maior comprador de petróleo saudita.
Em conclusão, a falta de coesão estatal dos países árabes, onde o poder não estatal dos extremistas conduz o diálogo e o apoio incondicional dos Estados Unidos a Israel facilitam o atual desequilíbrio geopolítico do Médio Oriente. E, as semelhanças das políticas de Biden e Trump sobre a questão palestina indicam que a mudança de rumo do atual conflito dependerá de outros países influentes, estejam eles dentro ou fora do Médio Oriente.

Luis Augusto Medeiros Rutledge, Analista Geopolítica
Referências
Geopolitical tensions: Middle East in global rivalry, Opinion Muhittin Ataman | SETA